Por um meme.

A gente gosta de imaginar que o grande problema da tecnologia é a tecnologia.

Não é.

O problema talvez seja a confiança.

Em algum momento, nós decidimos entregar para um punhado de empresas uma quantidade de informações sobre a humanidade que nenhum governo, nenhuma igreja, nenhum império e nenhum serviço de inteligência da história jamais conseguiu reunir.

Onde estamos. Com quem falamos. O que compramos. O que desejamos. O que odiamos. O que procuramos quando ninguém está olhando. O que assistimos de madrugada. Quanto tempo ficamos olhando para determinada coisa. Quem seguimos. Quem deixamos de seguir. O que nos faz rir. O que nos deixa com raiva.

Até aí, tudo bem.

Afinal, são empresas modernas. Gente moderna. Tecnologia moderna.

Então deve estar tudo sob controle.

É aí que começa a parte engraçada.

Porque eu não considero que o ser humano esteja tão confiante assim na maturidade de quem escolheu seguir como líder a ponto de entregar de bandeja absolutamente todos os dados da humanidade.

Inclusive os pessoais.

Em troca de memes.

Você entrega uma parte da sua intimidade para uma máquina que aprende com você durante anos.

Ela aprende seus horários, seus desejos, suas fraquezas, seus impulsos, suas relações, suas preferências e até aquilo que você ainda não sabe explicar sobre si mesmo.

E, em troca, ela entrega um vídeo de um cachorro caindo da cama.

Nós chamamos isso de evolução.

Talvez seja.

Mas existe uma pergunta que quase nunca fazemos: por que confiamos tanto em quem controla isso?

Não estou falando apenas de privacidade.

Privacidade é a parte pequena da história.

A questão maior é poder.

Porque quem conhece uma sociedade em escala não precisa necessariamente mandar nela.

Pode simplesmente antecipá-la.

Saber o que ela deseja antes que ela diga que deseja.

Saber o que a irrita antes que ela perceba que está irritada.

Saber quais palavras fazem milhões de pessoas parar o dedo na tela.

Isso é muito mais poderoso do que saber o nome de alguém.

E nós entregamos isso voluntariamente.

Sem revolução.

Sem invasão.

Sem soldado na porta.

Clicamos em “aceitar”.

Depois rolamos a tela.

Depois rimos.

Depois compartilhamos.

E seguimos a vida.

Por um meme.

Às vezes, a humanidade faz grandes negócios.

Às vezes, ela só clica em “aceitar”.

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