Todo mundo odeia a Geração Z. Eu não.

Toda geração acha que a próxima está pior.

Eu não gosto muito dessa história de culpar a geração que está vindo. É uma tradição curiosa: cada geração olha para os mais jovens, encontra alguma coisa que não entende e rapidamente transforma a diferença em defeito. “Essa geração não sabe ouvir música.” “Essa geração não lê.” “Essa geração não quer trabalhar.” “Essa geração só fica no celular.” A lista muda conforme a época. A lógica permanece.

Pra mim, o problema comece justamente aí. A gente olha pros jovens e encontra neles os sintomas do nosso próprio tempo, mas costuma tratá-los como se fossem características de personalidade. A dificuldade de concentração vira preguiça. O jeito diferente de consumir música vira falta de cultura. A relação com o trabalho vira falta de vontade. O comportamento muda e, em vez de perguntar o que mudou ao redor dessas pessoas, a gente pergunta o que há de errado com elas.

Antes de culpar quem chegou, olhe para o mundo que entregamos

Tem uma pergunta que costuma ficar esquecida nessa discussão: quem construiu o mundo em que essa geração chegou?

Se os jovens ouvem música de outra maneira, vale lembrar quem transformou a indústria musical em um catálogo infinito disponível no bolso. Se passam horas no celular, talvez seja interessante lembrar quem construiu dispositivos cada vez mais poderosos e plataformas desenhadas para disputar atenção o tempo inteiro. Se têm dificuldade para se concentrar, talvez também seja necessário olhar para um ambiente em que notificações, vídeos curtos, publicidade e estímulos constantes foram transformados em modelo de negócio.

A criança não inventou o algoritmo. Ela nasceu dentro dele.

Os sintomas são reais. A culpa é outra coisa

Isso não significa fingir que gerações não sejam diferentes. Elas são. Cada uma cresce com tecnologias diferentes, referências culturais diferentes, condições econômicas diferentes e expectativas diferentes sobre o futuro. Jovens também erram, reproduzem comportamentos ruins e criam problemas que precisarão ser enfrentados por eles mesmos.

Mas reconhecer uma diferença é uma coisa. Transformá-la em culpa é outra.

Quando uma geração inteira apresenta determinado comportamento, talvez seja um pouco conveniente imaginar que milhões de indivíduos simplesmente acordaram com o mesmo defeito de caráter. É uma explicação muito confortável porque dispensa uma investigação bem mais incômoda: que ambiente produz esse comportamento?

Nós também fomos o futuro de alguém

Existe ainda uma régua estranha nessa história. Esperamos que a geração seguinte seja melhor que a nossa, como se isso fosse uma obrigação moral e não uma responsabilidade coletiva. Queremos que eles trabalhem melhor, consumam melhor, se relacionem melhor, cuidem mais do planeta, tenham mais consciência e façam escolhas que nós mesmos não conseguimos fazer.

Mas e nós?

Fomos melhores que a geração anterior em tudo? Corrigimos todos os erros que recebemos? Entregamos uma economia mais justa, uma sociedade menos desigual, uma relação mais saudável com tecnologia e um futuro mais previsível?

Algumas coisas melhoraram. Outras pioraram. Muitas simplesmente mudaram de forma.

Quem entrega o mundo também entrega os problemas

Quando uma geração chega, ela não recebe uma folha em branco. Recebe uma economia já funcionando, uma cultura já estabelecida, uma tecnologia já desenhada, uma escola já organizada e uma ideia de futuro que foi construída antes dela.

Recebe também nossas contradições, nossas soluções provisórias e problemas que preferimos empurrar para frente.

É por isso que apontar para os jovens como se eles fossem os responsáveis pelo mundo que encontraram é uma maneira curiosamente eficiente de escapar da própria responsabilidade. É mais fácil dizer “eles são assim” do que perguntar o que fizemos para que eles chegassem até aqui.

A geração da frente somos nós

Por isso que eu prefiro inverter a direção da cobrança. Em vez de olhar para quem está chegando e perguntar por que essa geração não é melhor, talvez seja mais honesto olhar para quem teve mais tempo para construir. Eu, por exemplo.

Quem tomou as decisões. Quem estabeleceu as regras. Quem escolheu os modelos de trabalho, de educação, de consumo e de tecnologia que agora parecem tão naturais.

Para quem está atrás, nós também somos a geração da frente.

Nós somos o futuro que eles receberam.

Isso muda bastante a pergunta.

A responsabilidade não precisa ser culpa

Não se trata de absolver os jovens. Eles terão que responder pelas próprias escolhas, assim como todas as gerações responderam pelas suas. A questão é não transformar uma geração inteira em bode expiatório de tudo aquilo que incomoda quem veio antes.

Responsabilidade é diferente de culpa.

Culpa olha para trás procurando um culpado. Responsabilidade olha para trás procurando onde a construção começou, o que foi feito e o que ainda pode ser mudado.

Se queremos uma geração mais preparada, talvez o primeiro trabalho não seja cobrar mais dela.

Talvez seja entregar menos problemas para ela resolver.

A geração da frente

No fim, toda geração acredita que está preparando o mundo para quem vem depois. E talvez esteja mesmo. A questão é o que exatamente estamos preparando.

Um mundo em que a atenção virou produto? Um mercado em que estar conectado o tempo inteiro parece obrigatório? Uma cultura em que cada geração recebe a conta da anterior e ainda escuta que está reclamando demais?

Talvez seja hora de parar de olhar para a geração seguinte como um problema que apareceu na nossa frente.

Ela não apareceu. Foi construída aqui.

E se queremos que a próxima geração seja melhor, talvez o primeiro trabalho seja fazer com que a nossa seja boa o bastante para deixar um mundo melhor do que aquele que recebeu.

Se liga.

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